Tame Impala: vá, apenas

(Foto: Fabrício Vianna/Popload Gig)

Não imaginava que seria tão difícil a tarefa de conseguir um ingresso para a segunda vez do Tame Impala no Cine Joia, que tomou corpo na última quarta-feira (16), alheia à garoa e ao friozinho incômodo de São Paulo. Foi logo no início da minha procura, bem após os ingressos esgotados, que percebi ter subestimado o tamanho do impacto da banda capitaneada por Kevin Parker: encontrei um balde de pessoas tão ávidas por um ingresso quanto eu, com os mais variados objetivos. Descobri, por exemplo, que alguns eram fãs da banda no bom e velho frisson adolescente de se idealizar ao lado de alguns integrantes e ir recepcioná-los no hotel - e quem diria que isso aconteceria com a banda que começou a ser incensada em 2010 (ano de lançamento de seu primeiro álbum, Innerspeaker) como uma possível promessa em meio a tantas outras. O Tame Impala, agora não é só mais uma promessa (e isso já estava na cara com o lançamento do single de Feels Like We Only Go Backwards, mas disso falamos um pouco mais para frente). O Tame Impala é uma banda daquelas.

Eu achava que já sabia o que esperar da apresentação que assisti no Cine Joia. Quando saí da apresentação, também achava que já sabia o que eu tinha achado de tudo aquilo. Mas a verdade é que os significados começam a ser digeridos depois. Acho que eu não vi show algum. Ninguém viu show algum. Nós sentimos um show, isso sim.



Ao mesmo tempo em que estão, os integrantes parecem não estar por lá, enquanto os vocais e os instrumentos falam por si só. É um show completamente sinestésico, como manda o figurino da tag psicodélico que sempre acompanha o nome dos australianos. Mas, uma vez sinestésico, é claro que você nunca verá nada parecido e que nunca uma apresentação será igual à outra - neste momento, dane-se as referências. Que entre o momento. E que momento temos logo ao início, com as primeiras notas de Endors Toi. Somos tomados pelo que a banda nos traz - eu, particularmente, sou enviada de vez para o universo proposto em Desire Be Desire Go e conheço a redenção completa em Feels Like We Only Go Backwards.

Feels Like We Only Go Backwards. Sem exageros, acredito que essa talvez seja uma das melhores músicas feitas nos últimos tempos. É o casamento perfeito entre o mainstream e o alternativo. "Sentimental até a última nota", escrevi no final de 2012, quando a elegi enquanto minha melhor do ano. Com o público cantando em coro, ela se tornou uma grande lavagem de alma. 

Quando fui escrever sobre o show para o Rock 'n' Beats, vi que, pela primeira vez, me faltou palavras para descrever o que havia visto. Me faltou (mesmo após a conclusão e a publicação do texto) jeito e sensibilidade para transcrever tudo aquilo que presenciei. É porque pouco me importava se alguém tinha se inflitrado em um mosh tenebroso ou se Parker havia ficado impressionado com a plateia. Eu estava impressionada com o Tame Impala e a única resenha plausível para um show desses seria: vá, apenas.

Afinal, há história, mas não há. Me sinto assim quando vejo Paul McCartney tocar, por exemplo (sem comparações diretas entre a grandiosidade das duas apresentações). Mas McCartney já se construiu. O Tame Impala engatinha, mas já tem força suficiente nas pernas para se levantar e andar.


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